Portugal quer ganhar autonomia estratégica com aposta na produção nacional de drones
A ambição de transformar Portugal num produtor relevante de sistemas aéreos não tripulados ganha novo fôlego com a aposta do Governo em aprender com modelos internacionais bem-sucedidos. A visita do ministro da Defesa a uma empresa turca especializada em drones sinaliza uma mudança clara de posicionamento: mais do que adquirir tecnologia, o país pretende desenvolver capacidade própria, criar valor industrial e reforçar a sua autonomia estratégica no domínio da defesa.
Os drones assumem hoje um papel central nos conflitos modernos e nas operações de segurança, vigilância e protecção civil. A experiência recente em vários teatros de guerra demonstrou que estas plataformas são decisivas não apenas pelo seu custo mais reduzido face a meios tradicionais, mas também pela versatilidade e rapidez de adaptação a diferentes missões. É neste contexto que Portugal procura identificar boas práticas internacionais e avaliar como pode integrar esse conhecimento no seu próprio ecossistema industrial e tecnológico.
A indústria turca tornou-se, nos últimos anos, uma referência mundial no desenvolvimento de drones militares e de uso dual. Combinando investimento público, parcerias com o sector privado e uma forte ligação às forças armadas, a Turquia conseguiu criar soluções tecnológicas competitivas e amplamente utilizadas. Este modelo desperta interesse em Lisboa, sobretudo pela capacidade de transformar necessidades operacionais em produtos exportáveis, geradores de emprego qualificado e inovação.
A estratégia portuguesa passa por envolver empresas nacionais, centros de investigação e universidades num esforço coordenado. O objectivo é criar uma base industrial de defesa capaz de desenvolver drones adaptados às necessidades específicas das Forças Armadas, mas também com aplicações civis. Vigilância marítima, controlo de fronteiras, combate a incêndios florestais, monitorização ambiental e apoio em situações de catástrofe são apenas alguns dos cenários em que estes sistemas podem ter impacto directo.
Para o Governo, a produção nacional de drones representa também uma oportunidade económica. Num mercado global em rápida expansão, Portugal pode posicionar-se como fornecedor de nicho, apostando em soluções tecnológicas inovadoras e fiáveis. A integração em cadeias de valor internacionais, através de parcerias estratégicas, surge como um caminho para acelerar este processo e reduzir dependências externas.
Outro eixo fundamental da aposta passa pela soberania tecnológica. Num contexto geopolítico cada vez mais instável, a capacidade de produzir e manter sistemas críticos no próprio território é vista como um factor de segurança nacional. Desenvolver drones em Portugal significa maior controlo sobre dados, software e componentes sensíveis, além de garantir uma resposta mais rápida a necessidades operacionais específicas.
A visão do Executivo não se limita ao curto prazo. A criação de uma indústria nacional de drones exige investimento continuado, formação de quadros especializados e um enquadramento legal e regulatório claro. Implica também decisões estratégicas sobre financiamento, aquisição pública e estímulos à inovação, de forma a tornar o sector atractivo para o investimento privado.
Ao olhar para exemplos internacionais de sucesso, Portugal procura adaptar modelos à sua realidade, tirando partido da sua dimensão, da qualidade dos recursos humanos e da experiência acumulada em sectores tecnológicos emergentes. A aposta nos drones surge, assim, como parte de uma estratégia mais ampla de modernização da Defesa e de reforço da base industrial do país, com potencial para projectar Portugal como um actor relevante num domínio cada vez mais determinante para a segurança e a economia europeias.