Quatro Décadas que Mudaram o Destino Ibérico

 

A integração de Portugal e Espanha na União Europeia representou um dos momentos mais transformadores da história contemporânea da Península Ibérica. Ao longo de quatro décadas, a adesão ao projecto europeu redesenhou economias, consolidou democracias e alterou profundamente a forma como os dois países se posicionam no espaço político, social e económico do continente.

Quando passaram a integrar a então Comunidade Económica Europeia, Portugal e Espanha encontravam-se num processo recente de afirmação democrática, após longos períodos de regimes autoritários. A adesão simbolizou mais do que um acordo económico: foi uma declaração política de pertença a um espaço comum assente em valores como a democracia, o Estado de direito e a cooperação entre povos. Essa escolha revelou-se determinante para acelerar reformas estruturais e aproximar os dois países dos padrões europeus de desenvolvimento.

Do ponto de vista económico, o impacto foi profundo. O acesso ao mercado único abriu novas possibilidades de exportação, atraiu investimento estrangeiro e incentivou a modernização do tecido empresarial. Em Espanha, o crescimento económico ganhou uma dimensão inédita, com a expansão das infra-estruturas, da indústria e dos serviços. O país reforçou o seu papel como uma das maiores economias do bloco europeu, beneficiando de uma integração progressiva nas cadeias de valor internacionais.

Em Portugal, a adesão traduziu-se num salto qualitativo em sectores essenciais. As infra-estruturas básicas foram modernizadas, o território tornou-se mais coeso e a economia ganhou maior capacidade de competir num mercado alargado. A melhoria das condições de vida foi gradual, mas consistente, refletindo-se no aumento do poder de compra, no acesso a serviços públicos mais eficientes e na qualificação da mão-de-obra.

Os fundos comunitários desempenharam um papel central nesse percurso. Ao longo das décadas, financiaram estradas, portos, sistemas de saneamento, escolas, centros de investigação e projectos agrícolas. Para além do impacto material, esses investimentos contribuíram para reduzir desigualdades regionais e promover uma maior convergência com os países mais desenvolvidos da Europa.

A dimensão social da integração foi igualmente relevante. A livre circulação de pessoas permitiu a milhares de cidadãos viver, estudar e trabalhar noutros países europeus. Programas de mobilidade académica e profissional aproximaram culturas e criaram uma geração com identidade europeia mais forte, habituada a pensar além das fronteiras nacionais. Esta abertura teve efeitos duradouros na forma como portugueses e espanhóis se relacionam com o mundo e com o próprio continente.

No plano político, a pertença à União Europeia reforçou a estabilidade institucional dos dois países. A participação nas decisões comunitárias deu-lhes voz em temas estratégicos, desde a política económica à transição climática. Ao mesmo tempo, expôs fragilidades internas, sobretudo em momentos de crise, quando ajustes económicos exigiram escolhas difíceis e testaram a resiliência social.

Apesar dos progressos, os desafios mantêm-se. A necessidade de aumentar a produtividade, responder ao envelhecimento da população e garantir crescimento sustentável continua a marcar a agenda de ambos os países. Ainda assim, o balanço global destas quatro décadas é amplamente positivo.

A integração europeia não resolveu todos os problemas, mas ofereceu a Portugal e Espanha um quadro de estabilidade, cooperação e oportunidades que moldou decisivamente o seu desenvolvimento. Quatro décadas depois, o percurso ibérico na União Europeia confirma-se como uma das escolhas estratégicas mais determinantes da história recente, deixando marcas profundas nas sociedades e projectando ambos os países para um futuro indissociável do projecto europeu.