O mercado imobiliário português atravessa uma fase de forte valorização, com o preço das casas vendidas a registar uma subida expressiva e transversal ao território. A tendência confirma um cenário de pressão contínua sobre o acesso à habitação, num contexto em que a procura permanece elevada e a oferta continua limitada em muitas regiões do país.
O preço mediano das habitações transaccionadas atingiu um novo patamar, superando os dois mil euros por metro quadrado, o que representa um crescimento homólogo acima dos 16%. Este aumento não surge de forma isolada: também em relação ao trimestre anterior se verifica uma progressão, ainda que mais moderada, sinalizando que o mercado mantém uma trajectória ascendente sustentada.
Apesar da subida dos preços, o número de casas vendidas continua a aumentar. Foram realizadas mais de quarenta mil transacções num único trimestre, evidenciando que, mesmo com valores elevados, a procura não abrandou de forma significativa. Este comportamento sugere que a habitação continua a ser encarada como um activo seguro, tanto para residência própria como para investimento.
Entre os municípios de maior dimensão, o crescimento dos preços não foi uniforme. Em várias cidades médias, a valorização superou claramente a média nacional, com destaque para Setúbal e Coimbra, que lideraram as subidas. Estas cidades têm vindo a ganhar protagonismo, beneficiando da sua localização estratégica, da melhoria de infra-estruturas e de uma procura crescente por alternativas aos grandes centros metropolitanos.
Lisboa e Porto mantêm-se entre os mercados mais caros do país, com preços bem acima da média nacional. No entanto, o ritmo de crescimento nestas áreas foi mais contido quando comparado com outros municípios de grande dimensão. Este comportamento pode indicar uma certa maturidade do mercado nos centros urbanos mais consolidados, onde os valores já se encontram em níveis muito elevados.
A valorização do imobiliário estendeu-se a todas as sub-regiões do país, incluindo zonas do interior que, durante anos, registaram menor dinâmica no mercado habitacional. Regiões tradicionalmente menos procuradas passaram a evidenciar aumentos expressivos, refletindo uma redistribuição da procura e uma maior atratividade de territórios fora dos grandes eixos urbanos, impulsionada pelo teletrabalho e pela procura de melhor qualidade de vida.
Este crescimento generalizado dos preços tem impactos profundos no tecido social. Para muitas famílias, sobretudo jovens e agregados com rendimentos médios ou baixos, a aquisição de casa própria torna-se cada vez mais difícil. O esforço financeiro exigido aumenta, tanto pelo valor dos imóveis como pelo peso do crédito à habitação no orçamento familiar.
Por outro lado, a valorização do mercado imobiliário contribui para o aumento das receitas associadas às transacções e reforça o sector da construção e dos serviços ligados ao imobiliário. Ainda assim, o desafio central mantém-se: assegurar que o crescimento do mercado não se faz à custa do agravamento das desigualdades no acesso à habitação.
O cenário actual aponta para a continuidade da pressão sobre os preços, pelo menos no curto prazo. A capacidade de resposta da oferta, através da construção de nova habitação e da reabilitação urbana, será determinante para definir a evolução futura do mercado. Até lá, o aumento do preço das casas vendidas permanece como um dos principais temas económicos e sociais em Portugal.