Mónica Abreu transforma a literatura infantil numa ponte para a inclusão

Mônica Abreu

Mônica Abreu

Escritora brasileira alia educação, imaginação e experiências pessoais em obras dedicadas à infância. Em “O Mundo de Maria Júlia”, aborda o autismo e a importância de respeitar as diferenças.

A escritora brasileira Mónica Abreu encontrou na literatura infantil uma forma de unir a imaginação, a educação e a valorização da diversidade humana. Pedagoga, historiadora e especialista em Educação Especial, Psicopedagogia e Gestão Escolar, construiu um percurso literário marcado pela sensibilidade e pela vontade de criar histórias capazes de despertar emoções, estimular a reflexão e promover a inclusão.

A escrita surgiu ainda na adolescência, através de pequenos poemas inspirados nos sentimentos e nas experiências dessa fase da vida. Inicialmente, escrever era uma forma de expressão pessoal. Mais tarde, situações do quotidiano, imagens e acontecimentos passaram a despertar novas ideias, que se transformavam em personagens, diálogos e narrativas.

Durante algum tempo, essas histórias permaneceram apenas na imaginação. A decisão de as passar para o papel abriu caminho à criação de narrativas destinadas ao público infantil. O que começou como um passatempo acabou por se transformar num projecto de vida.

Da formação em educação aos primeiros livros

Em 2004, Mónica Abreu ingressou no curso de Pedagogia, no Brasil. A formação académica aprofundou o seu conhecimento sobre a infância, o desenvolvimento das crianças e a importância das histórias na formação humana.

Foi durante um trabalho académico que surgiu o desejo de publicar os seus textos. A autora precisava de criar uma história e transformá-la num livro, experiência que a levou a perceber que poderia partilhar as suas narrativas com outros leitores. Nessa altura, já tinha material para cerca de 15 livros.

A concretização desse objectivo chegou em 2016, com a publicação de Planeta das Crianças, a sua primeira obra. Posteriormente, uma das suas histórias foi seleccionada para integrar uma colectânea de literatura infantil, experiência que reforçou a vontade de continuar a escrever.

Seguiram-se outros títulos, entre os quais A Bailarina Angelina e O Sonho da Coelha, que contribuíram para consolidar o seu trabalho na literatura destinada às crianças.

A actividade literária desenvolve-se em paralelo com a sua experiência profissional na área da educação. Desde 2013, Mónica está à frente de uma escola, contacto diário que lhe permite acompanhar de perto as experiências, as necessidades e as descobertas próprias da infância.

Esta ligação à realidade educativa reflecte-se nas suas histórias, que procuram combinar o prazer da leitura com temas relacionados com os sentimentos, a convivência e o desenvolvimento pessoal.

Histórias para desenvolver a empatia

Na sua produção literária, a autora procura comunicar com as crianças através de uma linguagem sensível e acessível, valorizando a imaginação, a empatia e o respeito pelas diferentes formas de sentir e compreender o mundo.

Entre as suas referências encontra-se a escritora brasileira Ruth Rocha, que admira pela capacidade de abordar temas relevantes de forma inteligente, afectiva e envolvente.

Ao longo do percurso, Mónica Abreu participou em diversas antologias e colectâneas, com cerca de 50 poemas publicados em projectos literários, revistas e outras publicações. O seu trabalho recebeu também distinções e prémios de âmbito municipal, nacional e internacional.

Em 2023, alcançou outro marco importante ao tomar posse da cadeira n.º 6 da Academia de Letras de Lençóis Paulista (ALELP), no Brasil. A entrada na instituição representou um reconhecimento do seu percurso e um compromisso acrescido com a promoção da literatura e da cultura na sua comunidade.

“O Mundo de Maria Júlia”: o autismo no centro da narrativa

Entre as obras mais significativas da autora está O Mundo de Maria Júlia, um livro infantil que aborda a experiência de uma criança autista e destaca a importância do respeito pela diferença.

A obra reflecte a convicção de Mónica Abreu de que cada criança tem uma forma própria de sentir, aprender, comunicar e interpretar o que a rodeia. A literatura pode, neste contexto, contribuir para uma maior compreensão da diversidade e para a construção de relações mais empáticas desde os primeiros anos de vida.

A escolha do tema tem também uma dimensão pessoal. A autora recebeu um diagnóstico de autismo, descoberta que a levou a reinterpretar experiências da sua vida e a compreender melhor determinadas sensibilidades, dificuldades e particularidades que, até então, nem sempre conseguia explicar.

Segundo o seu testemunho, o diagnóstico não alterou quem era, mas ajudou-a a compreender melhor a própria identidade. Essa nova perspectiva também influenciou a forma como olha para a escrita e para as características que marcam a sua maneira de observar o mundo.

A atenção aos pormenores, a intensidade com que percepciona certas situações e a capacidade de transformar pequenos acontecimentos em histórias passaram a assumir um significado particular no seu percurso como escritora.

Em O Mundo de Maria Júlia, a inclusão não é apresentada apenas como um tema educativo, mas também como uma oportunidade para promover o reconhecimento e o respeito pelas diferenças individuais.

A autora pretende que as crianças autistas possam encontrar nas histórias elementos com os quais se identifiquem e que os restantes leitores desenvolvam uma maior compreensão das experiências dos seus colegas.

A mensagem é simples: antes de julgar aquilo que não compreendemos, é necessário aprender a olhar para os outros com mais sensibilidade.

Uma presença na Feira do Livro Infantil de Bolonha

O percurso de Mónica Abreu conheceu uma nova etapa com a apresentação de O Mundo de Maria Júlia na Feira do Livro Infantil de Bolonha, em Itália, um dos eventos internacionais dedicados ao sector da literatura para crianças.

A presença neste espaço representa uma oportunidade para dar maior visibilidade a uma história centrada na infância, na inclusão e no respeito pela diversidade, levando a mensagem da autora para além das fronteiras brasileiras.

Para Mónica, este momento simboliza a evolução de um caminho iniciado com poemas escritos na adolescência e desenvolvido através do estudo, da prática, das publicações e da persistência.

A sua experiência na educação continua a desempenhar um papel fundamental na construção das narrativas, permitindo-lhe aproximar a literatura das questões que fazem parte do quotidiano infantil.

Entre os seus objectivos está o de continuar a aperfeiçoar a escrita, conquistar novos leitores e criar obras que permaneçam na memória de quem as lê.

A história de Mónica Abreu demonstra como uma actividade inicialmente desenvolvida por gosto pessoal pode ganhar uma dimensão profissional e cultural. Na sua literatura, a imaginação encontra-se com a educação e as experiências individuais transformam-se em oportunidades para abordar temas universais.

Mais do que contar histórias, a autora procura contribuir para uma infância em que a diferença seja compreendida, a empatia seja estimulada e cada criança possa reconhecer o seu lugar no mundo.

Acompanhe o trabalho de Mónica Abreu no Instagram:

https://www.instagram.com/monicaabreu268?vrfl=cm0zNmc0NXZ0MzEz