Promessa Habitacional Enfrenta Gargalos e Entrega Muito Abaixo do Planeado
Criado com o objectivo de garantir habitação digna a famílias em situação de maior vulnerabilidade, o Programa 1.º Direito tornou-se uma das principais apostas da política habitacional em Portugal. No entanto, após vários anos de execução, os resultados concretos revelam um desfasamento significativo entre as metas anunciadas e a realidade no terreno. Em quase uma década de vigência, apenas 1.568 casas foram efectivamente construídas, número considerado modesto diante da dimensão do problema habitacional no país.
O programa foi concebido para responder a situações de carência habitacional extrema, incluindo famílias a viver em condições indignas, sem segurança, salubridade ou estabilidade. A proposta previa uma forte articulação entre o governo central e os municípios, com financiamento público destinado à construção, reabilitação ou aquisição de habitação para arrendamento acessível. Na prática, porém, a execução tem avançado de forma lenta e desigual.
Especialistas em políticas públicas e habitação apontam uma combinação de factores para explicar o baixo desempenho. Entre os principais entraves estão a complexidade burocrática, a demora na aprovação de projectos, dificuldades técnicas por parte de alguns municípios e limitações na capacidade de execução local. Muitos autarcas reconhecem que, embora o financiamento esteja previsto, os processos administrativos e urbanísticos acabam por travar o ritmo das obras.
Outro ponto crítico é o aumento generalizado dos custos da construção. A subida dos preços dos materiais, da mão de obra e dos serviços associados tornou vários projectos inicialmente viáveis em empreendimentos financeiramente difíceis de concretizar. Em alguns casos, os valores aprovados tornaram-se insuficientes, obrigando a reformulações, atrasos ou mesmo ao adiamento indefinido das intervenções.
A lentidão na entrega das habitações contrasta com o agravamento da crise habitacional. O aumento das rendas, a escassez de oferta a preços acessíveis e a pressão imobiliária nas áreas urbanas têm empurrado milhares de famílias para situações cada vez mais precárias. Organizações sociais alertam que a resposta pública não tem acompanhado a velocidade com que o problema se intensifica, especialmente entre famílias de baixos rendimentos, idosos e jovens.
Apesar das dificuldades, o Programa 1.º Direito continua a ser visto como uma ferramenta estrutural importante. Representantes do sector defendem que o modelo é adequado, mas carece de ajustes profundos para ganhar eficácia. Entre as propostas mais recorrentes estão a simplificação dos procedimentos, o reforço do apoio técnico aos municípios e a actualização dos valores de financiamento, de modo a reflectir a realidade do mercado.
Há também quem sublinhe a necessidade de uma estratégia habitacional mais integrada, que vá além da construção de novas casas. Reabilitação de edifícios devolutos, aproveitamento do património público subutilizado e parcerias com cooperativas e entidades do sector social são apontadas como caminhos complementares para acelerar resultados.
O balanço actual do programa expõe um dilema recorrente nas políticas públicas de habitação: a distância entre a intenção política e a capacidade de execução. Enquanto o número de casas entregues permanece reduzido, a pressão social cresce e reforça a urgência de respostas mais céleres e eficazes.
O desafio agora é transformar o 1.º Direito num instrumento realmente capaz de alterar o panorama habitacional, garantindo que os recursos disponíveis se traduzam em soluções concretas para quem mais precisa. Sem mudanças estruturais e maior agilidade, o risco é que o programa permaneça como uma promessa relevante no papel, mas insuficiente na vida real de milhares de famílias.