Caminho de Santiago transforma-se em palco de ciência, esperança e conscientização sobre as demências
Caminho de Santiago
Ao longo de um dos percursos mais simbólicos da Europa, ciência e histórias de vida caminham lado a lado para dar visibilidade às demências e reforçar que o cuidado começa pela forma como enxergamos quem vive com a doença
Todos os anos, milhares de peregrinos atravessam Portugal em direção a Santiago de Compostela movidos por diferentes propósitos. Alguns caminham por fé. Outros procuram recomeços, superação ou momentos de reflexão. Há séculos, o Caminho de Santiago representa muito mais do que um destino. É uma jornada de encontros, partilhas e transformação.
É justamente esse simbolismo que inspira a Walking the Talk for Dementia, iniciativa internacional que reúne investigadores, profissionais de saúde, cuidadores, familiares, representantes de organizações e pessoas que vivem com demência numa experiência inspirada pelo Caminho de Santiago, cuja rede de rotas históricas liga Portugal e Espanha até Santiago de Compostela, na Galiza.
Mais do que um congresso científico, o evento propõe uma forma diferente de produzir conhecimento. Em vez de limitar o debate aos auditórios, os participantes percorrem juntos o Caminho de Santiago, partilhando experiências, histórias e reflexões ao longo da caminhada. O percurso transforma-se num espaço onde ciência e humanidade caminham lado a lado.

Nesta edição, o Brasil será representado pelo Supera, uma das maiores redes de estimulação cognitiva da América Latina. Com sede em São José dos Campos e mais de 250 unidades distribuídas pelo território brasileiro, a instituição dedica-se, há mais de duas décadas, ao desenvolvimento de uma metodologia voltada para o fortalecimento das capacidades cognitivas e socioemocionais ao longo da vida, trabalho que ganhou respaldo científico por meio de pesquisas conduzidas pela Universidade de São Paulo (USP).
Para o Supera, integrar uma iniciativa como a Walking the Talk for Dementia representa mais do que participar de um evento internacional. Significa fazer parte de um movimento global que busca transformar a forma como a sociedade compreende o envelhecimento e as demências.
“Participar de experiências como esta amplia o nosso olhar sobre a saúde cognitiva. É uma oportunidade para aprender com diferentes culturas, conhecer novas práticas e fortalecer uma rede internacional comprometida com um envelhecimento mais ativo, digno e humano”, afirma Patrícia Lessa, diretora pedagógica do Supera.
A participação brasileira também terá destaque na programação científica. A professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), psicóloga e uma das maiores referências em Psicologia do Envelhecimento no Brasil, Mônica Yassuda, apresentará o Estudo Supera de Estimulação Cognitiva, pesquisa que reúne evidências sobre os benefícios da estimulação cognitiva em idosos saudáveis.

Os resultados reforçam a importância de estratégias preventivas capazes de preservar funções cognitivas, favorecer a autonomia e contribuir para um envelhecimento mais saudável. A apresentação fortalece o diálogo entre investigação científica, prática clínica e iniciativas voltadas à promoção da saúde cognitiva.
O maior diferencial da Walking the Talk for Dementia está fora das salas de conferência.
Ao longo da caminhada, desaparecem as barreiras que tradicionalmente separam cientistas, profissionais de saúde, cuidadores e pessoas diagnosticadas com demência. Todos percorrem o mesmo caminho, enfrentam os mesmos desafios e compartilham experiências que dificilmente seriam reproduzidas num congresso convencional.
A convivência torna-se parte do próprio processo de aprendizagem.
Essa proposta procura também combater um dos maiores obstáculos enfrentados por quem convive com as demências: o estigma. Em vez de olhar apenas para as limitações impostas pela doença, a iniciativa convida a sociedade a reconhecer as capacidades, as histórias de vida e a identidade de cada pessoa.
O Caminho de Santiago reforça essa mensagem.
Ao longo de séculos, as rotas que atravessam Portugal acolheram viajantes movidos pela esperança, pela fé e pelo desejo de transformação. Hoje, esse mesmo percurso torna-se também um espaço para refletir sobre um dos maiores desafios impostos pelo envelhecimento das populações em todo o mundo.
Num contexto em que a esperança média de vida aumenta e as demências se tornam uma preocupação crescente para os sistemas de saúde, iniciativas como a Walking the Talk for Dementia mostram que o cuidado não depende apenas dos avanços da medicina.
Ele também nasce da escuta, da convivência e da capacidade de construir pontes entre conhecimento científico e experiência humana.
Ao integrar essa jornada internacional, o Supera leva para a Europa uma experiência desenvolvida no Brasil e regressa com novas perspetivas para fortalecer o debate sobre saúde cognitiva. Mais do que representar uma instituição, a participação simboliza o compromisso com uma causa que ultrapassa fronteiras: promover um envelhecimento com mais autonomia, qualidade de vida e dignidade para milhões de pessoas.
No fim da caminhada, o destino continua a ser Santiago de Compostela. Mas, para quem participa da Walking the Talk for Dementia, o verdadeiro percurso acontece muito antes da chegada. É durante cada conversa, cada partilha e cada passo dado em conjunto que se constrói uma nova forma de compreender as demências e de cuidar das pessoas que convivem com elas.
